TRÊS MOMENTOS DE UM MESMO MARCO

TRÊS MOMENTOS DE UM MESMO MARCO

CRÔNICAS COMEMORATIVAS DOS 50 ANOS DE EXPLORAÇÃO DE CARAJÁS

Breno Augusto dos Santos

Nos primeiros reconhecimentos das clareiras de Carajás, a equipe de geólogos teve a sua atenção despertada pela variedade da cobertura de canga, responsável pela anomalia geobotânica. Havia dois tipos predominantes: com plaquetas de hematita, com certa estrutura, que denunciava a sua origem de uma formação ferrífera bandada; outra amorfa, mais avermelhada, predominantemente limonítica. Foram logo denominadas como “canga rica” e “canga pobre”.

A “canga rica” ocorre sempre em zonas elevadas ou pelo menos onduladas. A “canga pobre”, nas partes mais baixas e aplainadas. A pista da Clareira N1 foi construída em zona de “canga pobre”.
Hoje, sabe-se que uma está sobre o protominério jaspelítico e, a outra, sobre a encaixante basáltica.
Gene Tolbert, na sua primeira visita, ficou admirado, e até assustado, com a extensão das clareiras. Ainda no acampamento do Cinzento, solicitou, ao desenhista C. Marbus, que fizesse o cálculo da área total das clareiras. Sem que ainda soubéssemos o que havia sob a canga, fez cálculos primários do possível potencial em minério de ferro, simplesmente multiplicando a área por várias espessuras, e aplicando a densidade aproximada do minério. Mesmo sem qualquer base técnica, enviou para a direção da United States Steel, em Pittsburgh, um telegrama informando que o potencial poderia estar entre 2 e 35 bilhões de toneladas. Por coincidência, a pesquisa feita pela Amazônia Mineração – AMZA (Vale/USS) chegou ao total de 18 bilhões de toneladas de minério...

Foto-índice do Projeto Araguaia, que serviu de base para o primeiro mapeamento das clareiras com canga de Carajás.


Cópia do primeiro overlay do foto-índice do Projeto Araguaia, com identificação das clareiras
(setembro de 1967).



Na execução desse cálculo, Tolbert fez a denominação da Serra Norte e da Serra Sul, e as clareiras foram logo numeradas.

Mapa feito a partir do overlay, com denominação das serras Norte e Sul, e a numeração das clareiras (setembro de 1967).

Quando começamos os trabalhos na N1, tivemos como objetivos prioritários, além da construção do acampamento, da pista de pouso e da barragem para abastecimento de água, a abertura de uma galeria para verificar o que havia sob a canga, e o mapeamento preliminar das clareiras, para diferenciar os tipos de canga.

Para o mapeamento necessitávamos de uma base topográfica. Assim, foi contratada a empresa Sertopo, de Belém, cujo dono, Edwal Trindade (Vavá), havia sido topógrafo da ICOMI, em Serra do Navio.

E tudo começou com o assentamento do primeiro marco topográfico de Carajás, que serviu de base para a amarração dos levantamentos das clareiras. A partir da linha base das clareiras, o mapeamento preliminar foi feito através de linhas transversais.

Esse marco passou a ser uma referência física e histórica, mas também emocional. Entre as minhas muitas passagens por Carajás, às vezes o visito para relembrar as várias etapas do desenvolvimento dos trabalhos na região. E quase sempre vem a recordação dos companheiros que participaram da epopeia de Carajás, principalmente dos que já nos deixaram...

Tudo isso me veio à memória, ao contemplar imagens, que marcam três momentos em que lá estive...

Assentamento do primeiro marco topográfico de Carajás, na Clareira N1, pela equipe da Sertopo e companheiros da Meridional (16 de março de 1968).

Locação da primeira linha-base de Carajás, na Clareira N1, pelo topógrafo Vavá (15 de março de 1968).

No início de 1982, fui contemplado com um convite da diretoria da Vale, para levar minha família para conhecer Carajás. Foram momentos inesquecíveis, de muita alegria e emoção...


Com o meu filho Paulo, durante visita da família a Carajás (30 de janeiro de 1982).

Mesmo já aposentado da Vale, continuei tendo a oportunidade de lá voltar, ao lado de uma nova geração de geólogos, que continua a desvendar os mistérios da geologia de Carajás, e de seu fabuloso potencial mineral, ainda não totalmente conhecido...


Visita mais recente ao marco, ao lado de geólogos da Vale (21 de abril de 2006).



Niterói, 21 de abril de 2017

Comentários

  1. Breno Augusto dos Santos - Chefe do Projeto que descobriu o minério de ferro de Carajás. Memória da Exploração Mineral Brasileira

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